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Das entranhas valeparaibanas um pequeno álbum-retrato

Desde 2011, pelas ruas de São José dos Campos (SP) e, consequentemente, no Vale do Paraíba é notável as variadas iniciativas artísticas e culturais contemporâneas que brotaram de muita gente nova que já não esperava e fazia acontecer. Quem sabe faz a hora! O rio Paraíba beirando a cidade, com suas águas que dão de beber por onde passa (e que as políticas públicas de tratamento de esgoto insistem em não cuidá-lo) dá o tom. Somos filhos do rio que dá nome a toda a região de seu vale. De nosso Vale! Com sua história Piraquara nos corações e seu curso vagaroso, lento, que nos serpenteia. Calmaria no rio, pulsação nos corações. E assim, há pelo menos 06 anos, que a cena cultural independente de toda a região nos começou a pulsar mais fortemente. Foi contínuo o surgimento de uma cena independente: bandas, coletivos e espaços culturais, movimentos de poesia e saraus, produção de artes visuais, audiovisual e muitas outras iniciativas que tiraram definitivamente o título cidade dormitório desta terra. Parte da juventude cansou do caminho casa-trabalho-casa e que, vez ou outra, ia “passear” nas alienantes bolhas de entretenimento dos shoppings centers. Inspirada em diversas iniciativas no país, propagadas com o advento da internet e redes sociais, resolveu fazer e viu que era possível. Dever do poder público promover e fomentar a arte e cultura, fato. Mas parte jovem proativa da população entendeu que é importante e totalmente possível fazer com sucesso seus próprios festivais, suas próprias festas regadas a artistas locais, declamações poéticas, saraus, exposições de artes, mostras de audiovisual, música, etc. E continua…

MAIS URBANOS QUE RURAIS

A roça que está em nós que não moramos na roça

São José dos Campos é peculiar na transição roça/cidade, rural/urbano, conexão centro caótico/paz da natureza. Um exemplo clássico é o banhado. Eis que encravada ao lado da zona central da cidade se situa uma enorme área verde digna de ser chamada – positiva e construtivamente – de roça. Uma concha natural com 5,1 milhões de metros quadrados onde o rural e o urbano se encontram, literalmente, bastando atravessar uma rua. Lá existem nascentes, uma comunidade de mais de 80 anos que cuida de criações, plantações, roçados e são guardiões da grande natureza local, de seu silêncio apaziguador.

Outro exemplo é o distrito de São Francisco Xavier: distante apenas 59km do centro da cidade, ele tem como principais riquezas seus recursos hídricos, fauna, flora e atrações naturais, como: picos, montanhas, rios, cachoeiras. São Xico – como é conhecida dos joseenses – é um local turístico que abriga parte do ecossistema riquíssimo da Serra da Mantiqueira.

No entanto, no modo clássico de entendimento, a roça e sua cultura já era distante do centro urbano desde a década de 1970, ano que o êxodo rural havia se consolidado. E assim é até hoje. O campo sempre apresentado como um território distante, um lazer-refúgio de quem tem alguma propriedade particular ou de quem só o conhece de passagem. De maneira geral estávamos longe na cidade, mas desejando ao menos ficarmos próximos da natureza, da terra, da mata, dos rebanhos, da tranquilidade.

A oportunidade dada a alguns de nós: fixar-se na zona rural. Aos amigos quem não moravam: frequentar. Foi neste cenário que, em 2013, nasceu o núcleo musical do que viria a se autodenominar tropsicodélico. Surgia na roça o protonúcleo da banda que viria a se chamar Dom Pescoço.

EI! VOCÊS TEM UMA BANDA DE QUÊ?

Uma pergunta cotidiana que, de modo involuntário, nos propôs um movimento estético

Somos do mundo, da América do Sul, do Vale do Paraíba, somos de Sanja. Bebemos do rio Paraíba, navegamos piraquaras, circundando culturas, desaguamos no mar e seguimos.

Na Dom Pescoço esta questão estética-rítmica sempre foi complicada de responder. Somos seres plurais e nada dicotômicos, temos múltiplas influências e sem obrigações de seguir permanentemente quaisquer linhas estéticas. Gostamos do funk carioca ao rock. Da cumbia ao pós-punk. Do samba ao maracatu. Da moda de viola à disco. Somos filhos da cultura tradicional piraquara caipira quanto do pop. No entanto, uma linha macro geral nos é constante: ritmos tropicais com psicodelia. Tropsicodelia! Isso é o quê? Uma ruptura nossa. Neologismo nosso. Mas não só! O que também permeia é: arte variada; crítica; lúdica; multifacetada; libertária. Uma linha a seguir? Zona plural ever em atividade mentais intensas! Nada é fechado. Tudo aberto. Ousar, reciclar, antropofagiar.

Sabemos que este exercício não é inédito por toda a história da arte e que nada é tão inovador que já não tenha sido feito. Afinal, “nem tropsicodélico é o novo rock’n’roll”. No entanto, esta proposta joseense e valeparaibana aqui é o de sempre experimentar, com nossas referências, de nosso jeito.

E por aqui demos este nome: Tropsicodelia.

Adentre.

2018-08-22T03:31:25+00:00